Porque não assino a petição do Nutri-Score

Há 7 anos entregava a minha tese do One Planet MBA, o único (que eu saiba) que tinha como objectivo formar gestores preparados para lidar com os desafios do século XXI e para a necessidade de integrar as questões ambientais e sociais na forma como se mede o sucesso de um negócio.

Não preciso dizer quão inspirador foi e quantas ideias inovadoras surgiram nas nossas cabeças.

A tese acabou por ser sobre turismo sustentável, mas uma das minhas ideias de Projecto foi desenvolver um sistema associado aos rótulos dos alimentos, que calculasse um score de sustentabilidade.

Desafios: Que critérios escolher, que importância lhes dar e garantir que eram objectivos e suportados em ciência. Too much para uns meses de trabalho com um miúdo na barriga 🙂

Neste momento existe uma petição para que todos os países da UE adoptem o Nutri-Score.

Sabendo do meu activismo relativamente a estas questões, vários amigos me enviaram a petição.
E se me preocupo tanto…porque não a assino?

Vou mostrar o meu ponto de vista usando exemplos.

  1. Queijo edam da marca Auchan
    Ingredientes: Leite de vaca pasteurizado, sal, fermentos lácticos e coalho.
    Nutri-Score D.
    Acredito que o mau score se deva essencialmente à quantidade “excessiva” de gordura saturada por 100g (discutível).
    Para dar uma ideia, uma fatia deste queijo, que pesa à volta de 21g, tem cerca de 3g de gordura saturada. Praticamente a mesma quantidade que 1.5 colher de sopa de azeite (~21g).
  2. Doce de abóbora light da Casa de Mateus
    Ingredientes: Abóbora, açúcar, xarope de glicose e frutose, gelificante (pectina), regulador de acidez (ácido cítrico) e agente de endurecimento (cloreto de cálcio)
    Nutri-Score C.
    Embora seja um doce light, tem 42g de açúcar por 100g.
    Ninguém come 100g de doce de uma vez, certo? Talvez 1 ou 2 colheres de chá, que serão à volta de 10-20g. Ou seja, 4-8g de açúcar.
  3. Queijo fundido Queru para barrar light
    Ingredientes: Queijo, água, proteínas lácteas, soro em pó, sais fundentes E452, E339.
    Nutri-Score C.
    100g deste queijo tem 5g de gordura saturada (o edam tinha 14g).
    Na minha opinião entrámos mesmo no universo das imitações de comida e nem me dou ao trabalho de perceber qual é a porção usual. Em regra, no que toca a ultraprocessados, acabamos sempre por comer mais.

Independentemente de se consumir lacticínios ou não, pois não é o que está em causa, segundo o Nutri-Score, o doce é melhor que o queijo. Sendo que, em termos de nutrientes, o doce apenas tem hidratos de carbono na forma de açúcar e o queijo tem proteína e gordura, os macronutrientes mais saciantes.
Também segundo o Nutri-Score, um queijo ultraprocessado é uma melhor escolha que um queijo com uma lista de ingredientes super simples.

Como mostrei acima, sei por experiência o quão difícil é definir critérios a incluir num score e as suas respectivas balizas.

Mas os scores só viabilizam escolhas melhores se forem baseados em critérios objectivos e suportados pela ciência mais recente.

O ideal seria não ser necessário ler rótulos, certo? Apenas consumir alimentos in natura ou minimamente processados. Comida de verdade 🙂
Inclusivamente penso que deveria ser essa a principal mensagem a passar ao consumidor.

A seguir, porque todos consumimos processados por uma questão de conveniência, tentar alertar para a importância de avaliar a sua composição AKA ver a lista de ingredientes.

E finalmente, em relação a ultraprocessados, imitações de comida, aLIXOlimentos…orientar para os evitar a todo o custo. Nem sequer perder tempo com eles.

Critérios alternativos que me passam pela cabeça:

  • densidade nutricional (quantidade de nutrientes por kcal ou g)
  • posição do açúcar (e seus vários pseudónimos) na lista de ingredientes
  • presença de óleos vegetais refinados
  • presença de farinhas refinadas
  • utilização de aditivos passíveis de causar reacções adversas
  • etc etc…

Atendendo à quantidade de pessoas que compra processados e ultraprocessados, percebo que os queiram ajudar a escolher os menos maus…

Mas não é perpetuando a caça às bruxas a determinados macronutrientes, como a gordura saturada, que o objectivo é cumprido. Aliás, como se viu acima, não é! Inclusivamente existe gordura saturada em alimentos considerados dos mais saudáveis que existem: leite materno, azeite…

Não, não vou assinar a petição. Quero um sistema melhor 🙂

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