Entrevista à Alexandra, do blog Nutri.Healthy.Alex

Há muito que queria falar de um tema que não vejo muito difundido em Portugal: a dieta pobre em FODMAPs. “O quê??” Pois 😀

Esta dieta foi desenvolvida a partir de vários estudos realizados pela MONASH, uma Universidade Australiana, e consiste em limitar alimentos que agravam os sintomas associados ao Síndrome do Intestino Irritável (SII).

Além da minha curiosidade natural (não sofresse eu de alguns problemas gastrointestinais), recebi de algumas subscritoras, pedidos expressos para excluir determinados alimentos dos menus Simplify Eat. Num dos casos, confirmei que se tratava de uma tentativa de controlar o SII. Assim, para satisfazer as restrições assinaladas, tive de ir estudar, que é como quem diz: pesquisar por essa net afora.

Infelizmente, quando andei pelos sites sobre FODMAPs, não “apanhei” o Nutri.Healthy.Alex. Foi só quando provei uma tarte de batata-doce e côco MA-RA-VI-LHO-SA, que esbarrei com a Alexandra!

Nem cheguei a confirmar se a tarte que provei foi feita seguindo a receita dela 😀 Mas isso não interessa nada pois, ao explorar o site, fiquei imediatamente encantada com os conteúdos, ao ponto de ter metido conversa com a Alexandra e lhe ter proposto esta entrevista.

Vamos a isso? 😉

Olá Alex! Grata por esta entrevista. Como já tive oportunidade de comentar contigo, não sei como demorei tanto tempo a encontrar-te! Vamos lá recuperar esse tempo perdido! 🙂 O teu blog inclui receitas (com óptimo aspecto, diga-se!), vários temas relacionados com Nutrição e alimentação saudável, mas há uma grande tónica nos FODMAPs. Podes explicar resumidamente o que são e o que te levou a experimentar esta abordagem?

Desde já obrigada pelas tuas palavras e por esta oportunidade de poder falar mais sobre o meu blog e os temas que abordo.

Basicamente os FODMAPs são hidratos de carbono fermentáveis, ou seja, são moléculas de açúcar que muitas das pessoas não conseguem digerir corretamente e que acabam por fermentar no nosso intestino grosso, originando excesso de gases que pode causar dor, distensão abdominal e agravar outros sintomas de síndrome do intestino irritável.

No meu caso, o aumento dos meus sintomas do intestino irritável estavam a condicionar a minha qualidade de vida. Já tinha feito uma grande mudança na minha alimentação e hábitos alimentares, contudo sabia que não era suficiente. Por isso, comecei a procurar mais informação sobre tratamentos naturais para o intestino irritável. Foi aí que encontrei vários artigos e estudos sobre a dieta FODMAP que estava a alcançar bons resultados no alivio dos sintomas desta síndrome. Apesar de ser ainda uma dieta recente e quase desconhecida em Portugal, fez todo o sentido para mim experimentar e verificar se existiam alimentos que eu não conseguia ou tinha mais dificuldade em digerir.

Como é que as pessoas mais próximas reagiram à tua “experimentação” e como conseguiste levá-la a bom porto? Presumo que não tenha sido fácil…

Não foi fácil ter que deixar de comer tantos alimentos, mesmo os mais básicos e essenciais, mas a verdade é que em apenas duas semanas, o alívio dos meus sintomas foi notável. Claro que o meu médico e a minha família no início ficaram preocupados com a necessidade de eliminar tantos alimentos saudáveis e importantes para a nossa nutrição. Mas sabiam que eu tinha estudado bem a dieta e as possíveis carências nutricionais que devia ter em atenção.

Confesso que a parte mais difícil para mim, foi a reintrodução dos FODMAPs e verificar quais os alimentos que tinha mais dificuldade em digerir. É uma fase em que se tem de ser bastante rigoroso às quantidades que estás a reintroduzir e ficar atento às possíveis causas dos teus sintomas. Por um lado tens muita vontade em voltar a poder comer alguns dos alimentos que tiveste de eliminar, mas por outro não queres voltar a ter aquelas crises de dor e desconforto abdominal. Depois, dentro do mesmo tipo de FODMAP podem existir alimentos que consegues digerir em maior quantidade e outros não. Houve muitos dos alimentos que quis voltar a comer que tive de testar um a um.

Quais são as principais vantagens que vês numa dieta pobre em FODMAPs e também os principais obstáculos?

A dieta FODMAPs não vai curar a síndrome do intestino irritável, mas segundo as estatísticas tem sido um ótimo tratamento para o controlo e redução drástica dos sintomas de cerca de 70% dos casos, sendo um procedimento mais natural e com resultados prolongados. A qualidade de vida destas pessoas mudou significativamente para melhor com a eliminação dos FODMAPs. Tem-se ainda verificado que pode também ajudar na redução de sintomas de outros problemas digestivos, doenças de pele e do sistema reprodutivo.

Claro que fazer esta dieta não é fácil para muitas pessoas, porque exige eliminar durante algumas semanas muitos alimentos que estão habituadas a comer. No início as pessoas ficam um pouco confusas, sem saber o que comer, porque é preciso aprender a controlar quais os alimentos pode comer e quais as suas quantidades recomendadas. Por isso, é importante o acompanhamento médico e nutricional que ajude a pessoa a saber o que comer; como fazer para manter uma dieta equilibrada; perceber como se está a sentir em cada dia e quais as possíveis causas dos seus sintomas. Embora a alimentação seja a parte mais importante para manter um bom sistema digestivo, não nos podemos esquecer que este está interligado com o resto do corpo, principalmente com a nossa parte emocional.

Por isso, em muitos casos terá mesmo que ser necessário recorrer a tratamentos e terapias complementares que ajudam a relaxar e manter a nossa parte emocional equilibrada para podermos alcançar melhores resultados.

Há algo que me agrada bastante nos teus posts de receitas (além das fotos “deliciosas”) que é a abordagem científica e educacional. Não só partilhas boas receitas, como também tentas ir mais longe e explicar os benefícios dos ingredientes que as compõem. És da área das ciências ou é “só” uma grande paixão?

A minha formação é em engenharia civil. A nutrição foi surgindo depois da minha paixão pela comida, por cozinhar e claro dos meus problemas de saúde com a alimentação e a parte emocional. Há alguns anos atrás, com o diagnóstico de síndrome do intestino irritável, fui aconselhada a mudar de alimentação e a controlar melhor o stress e ansiedade.

Mas na altura, a informação disponível sobre como o fazer era pouca específica e escassa. Por outro lado, eu queria perceber a causa dos meus sintomas para não continuar a agravar a minha situação.

Por isso, comecei a pesquisar tudo sobre o meu problema, os sintomas, as possíveis causas, os tratamentos e os estudos científicos desenvolvidos. Comecei aperceber-me da importância do que comemos e seu efeito no nosso corpo, assim como, do nosso sistema digestivo e o seu funcionamento.

Desde daí não parei, continuo a estudar nutrição e culinária saudável e, estou agora a frequentar o curso de nutrição ayurvédica.

Li algures num dos teus artigos que lidaste com o excesso de peso, que inclusive tentaste algumas dietas baixas em calorias, mas que a partir de certa altura começaste a pensar diferente e a preocupar-te menos com calorias e mais com a qualidade dos alimentos e o seu efeito no teu corpo. Qual foi o click para essa mudança de paradigma?

Sim desde miúda que sempre tive problemas com excesso de peso. E na adolescência comecei a sentir essa pressão de emagrecer. Ao longo dos anos fui fazendo vários tipos de dieta, conseguia emagrecer, mas ao final de algum tempo voltava ao peso inicial. Porque não conseguia viver tanto tempo a comer uma comida com pouco sabor e que não gostava. No final ficava ainda mais desanimada e sem energia.

Acho que a mudança aconteceu quando me apercebi que estas dietas ioiô não resultavam e só estavam a agravar ainda mais os meus sintomas no intestino. Decidi então apostar mais no exercício físico e na qualidade dos alimentos que como, deixando de lado os produtos light e os processados.

Percebi que podia manter um peso saudável, comendo comida com sabor, que me saciava e dava a energia necessária, sem me preocupar muito com o seu conteúdo calórico.

Como defines “alimentação saudável”?

É uma definição muito subjetiva. O que é saudável para mim pode não ser para ti. Cada pessoa tem um corpo diferente, com um tipo de sistema digestivo que pode ter mais facilidade ou não de digerir e que exigem hábitos alimentares diferentes dependendo do nosso estilo de vida e exigências físicas e psicológicas. Por isso, acho que a alimentação saudável é encontrar esse equilíbrio, uma alimentação que conseguimos digerir, que nutre o nosso corpo e dá energia para as nossas exigências diárias. Daí a importância das rotinas e dos hábitos alimentares. O nosso corpo gosta que respeitemos os horários das refeições e as suas quantidades. Manter um sistema digestivo regular, capaz de digerir e absorver bem, é um bom início para nos mantermos saudáveis.

Dar preferência a alimentos o mais naturais possíveis, locais e da estação de acordo com que vivemos, também é um bom princípio de nutrição saudável.

Contudo não acho que devemos viver obcecados com a alimentação saudável, o importante é saber o que estamos a comer e o que é preciso para nutrir o nosso corpo e manter a nossa saúde e bem-estar.

Que outros cuidados tens com a tua saúde, para além da alimentação?

É difícil na sociedade que vivemos hoje em dia não sofrer com stress ou falta de tempo para fazer tudo o que queremos. Por isso, tenho o cuidado de fazer exercício físico para manter o meu corpo ativo, mas também para descomprimir e relaxar. Comecei a fazer yoga e técnicas de respiração para ajudar a controlar o stress e ansiedade. Outro cuidado que acho muito importante é respeitar as nossas horas de descanso, ter uma boa rotina do sono é essencial para o descanso do nosso corpo e mente. E assim conseguirmos manter saudáveis e com energia para resistir aos desafios do dia-a-dia.

Que conselhos darias a alguém que esteja prestes a iniciar uma dieta pobre em FODMAPs?

Relaxar e fazer um dia de cada vez! É normal sentir medo e achar esta dieta complicada, mas a verdade é que não temos nada a perder e esta dieta não tem que ser para toda a vida. Ela penas pretende ajudar-nos a determinar que alimentos podem estar a agravar o nosso desconforto digestivo. E cada caso é diferente, podemos sentir o alívio dos sintomas logo ao fim de poucos dias da dieta ou demorar mais algum tempo. Não vale a pena focar-se muito nisso.

Procurar apoio se tem dúvidas ou não está a conseguir fazer. O acompanhamento de um nutricionista ou especialista nesta dieta pode ser uma mais-valia, principalmente nestes casos, porque ajuda a explicar o que comer; como manter uma alimentação equilibrada e a dar apoio no início de cada uma das fases da dieta.

Onde te podemos encontrar?

No meu blog nutrihealthyalex, todas as semanas partilho novas receitas e artigos com dicas e informações sobre como melhorar a nossa alimentação e cuidar melhor do nosso sistema digestivo. E muito em breve, irei colocar mais novidades que possam ajudar as pessoas com problemas digestivos ou queiram seguir a dieta FODMAP.

Caso queiram saber mais informações ou tirar dúvidas sobre a vossa alimentação e receitas, podem sempre contactar-me por e-mail ou através da página de facebook do nutrihealthyalex.

Obrigada Alexandra!

Fim 🙂

 

Então? Gostaram?

Espero que tenha sido útil abordar este assunto, não só a dieta em si mas a saúde intestinal em geral, e como ela pode ser preponderante para a nossa saúde global.

Talvez tenha gostado tanto do site da Alexandra porque assenta exactamente naquilo que acredito que deve ser a abordagem à alimentação: a nossa individualidade.

Não há razão alguma para não sermos quem melhor conhece o nosso corpo. Temos de ser responsáveis pela nossa saúde, fazendo o que estiver ao nosso alcance, em termos alimentares, físicos e emocionais para melhorá-la.

E se isso implicar fazer uma dieta como esta durante 3 ou 4 semanas…o que é 1 mês, comparado com os anos que já vivemos e que ainda queremos viver em pleno? 😉

Até à próxima entrevista!

2 thoughts on “Entrevista à Alexandra, do blog Nutri.Healthy.Alex

  • Sónia GM

    Extremamente interessante e muito pertinente nos dias de hoje. Mais uma ferramenta no combate ao terrorismo alimentar 🙂
    Curioso é ver cada vez mais, pessoas outsiders do mundo alimentar, a tomarem a dianteira nestas pesquisas. Mentes curiosas e irrequietas que não aceitam permanecer na área de conforto do saber já gasto (e obviamente manipulado ao belo prazer da indústria alimentar, que é colossal) sobre a alimentação e que arregaçam as mangas e pondo-se a trabalhar, de mãos dadas com a ciência, experimental ou teórica, em busca de novos conhecimentos.
    Adoro, adoro, adoro! Tumbs up para vocês.

    • Obrigada Sónia pela motivação que nos dás e pelos comentários sempre incisivos e pertinentes!
      Talvez seja mais fácil para nós, os de “fora”, questionarmos o status quo. Infelizmente muitos profissionais de Nutrição aprenderam teorias mal alicerçadas, entretanto refutadas.
      Tal como noutros cursos, a formação é apenas a base. O resto vem da necessidade de nos mantermos actualizados, do pensamento crítico e da tal incapacidade de aquietar a mente 😀
      Beijinho!

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