E se de repente não fosse fixe comer lixo?

Será que haveria uma redução do consumo de “comida de plástico” por parte dos adolescentes, um dos grupos mais atingidos pelo marketing da indústria alimentar ultraprocessada?

Um estudo conduzido pela Chicago Booth School of Business tentou perceber isso mesmo e delineou uma experiência com adolescentes de uma escola do Texas.

Os participantes foram divididos em dois grupos: o da intervenção e o controlo.

No grupo da intervenção os investigadores partilharam um artigo sobre a indústria alimentar, salientando as estratégias agressivas para promover e vender os seus produtos. Foi dado especial enfoque a técnicas menos correctas, nomeadamente junto de populações mais vulneráveis como crianças pequenas. No artigo mencionado, a indústria era apresentada como manipuladora, voraz e focada na maximização dos seus lucros.
No grupo controlo apenas foi partilhado material típico de programas de educação para a saúde e os benefícios de uma dieta saudável.

Que resultados obtiveram?

No grupo da intervenção (o dos miúdos a quem foi lido o artigo) os investigadores observaram uma percepção menos positiva sobre a “comida de plástico”. Além disso, houve uma diminuição no consumo destes produtos por parte dos rapazes (cerca de 31% menos que no grupo controlo). Efeitos que se estenderam por 3 meses ou mais. Uau!

Nas meninas a diferença no consumo de junk food entre os dois grupos não foi tão expressiva, sugerindo que ambas as estratégias foram efectivas. No entanto, os investigadores especulam que no grupo controlo a motivação para realizar escolhas mais saudáveis terá sido a maior preocupação com a imagem corporal. Já no grupo da intervenção, o artigo terá promovido uma maior consciência, independentemente da questão da imagem/peso.
Dada a semelhança entre os grupos de meninas, os autores do estudo consideram que a estratégia utilizada no grupo da intervenção (o artigo) poderá ser menos propícia a induzir uma preocupação excessiva com o peso, logo mais vantajosa.

São resultados muito interessantes para um público usualmente pouco permeável a estas questões, sobretudo os rapazes por aparentemente não partilharem das preocupações estéticas das suas colegas (passo a generalização!).

Sem dúvida que a indústria contribui para esta fraca receptividade, colocando uma aura “fixe” em torno do consumo da “comida de plástico” (tal como faz com a bonecada para as crianças pequenas).

Dadas as características desta faixa etária, valeria a pena reflectir se as actuais estratégias para promoção de hábitos saudáveis serão realmente eficazes para este público em específico.

Até uma certa idade, a arrogância de ser novo não nos permite enxergar a médio/longo-prazo as consequências das nossas escolhas. Quem nunca? 🙂

E na verdade muitos de nós, enquanto jovens comíamos quase tudo sem nos aperceber, no imediato, dos efeitos das nossas más escolhas.

Portanto, apelar ao pensamento de longo-prazo parece pouco eficaz, tratando-se de adolescentes.

Já combater a aura “fixe” e usar a aversão ao controlo, injustiça, manipulação, parece ser algo a explorar futuramente, principalmente neste período tão audaz das nossas vidas 😉

2 thoughts on “E se de repente não fosse fixe comer lixo?

  • Adoro esses estudos! E obrigada por teres partilhado 🙂
    Para mim, faz todo o sentido essa consciencialização real na adolescência. Nessa faixa etária, já faz todo o sentido expôr todas as explicações (reais) por detrás dos porquês. Querem factos, querem um justificação lógica que abrace o seu cérebro impulsivo e reativo ainda. Querem lutar por verdadeiras causas. E nesta altura, mais que nunca, a influência de grupo e de adultos de referência é importantíssima nas escolhas que o adolescente faça. Nada como influenciar em grupo para que a forma como olham para a alimentação vá mudando.
    Mas antes, tem de lhe fazer sentido. E só mostrando o que está por detrás dessa junk food é que o processo de consciencialização se torna real 😉

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