“Não consegue fechar a boca, pá!”

Muitos ainda acreditam que todas as calorias são iguais e que o ganho de peso se deve apenas a uma ingestão excessiva de energia.

Eu sei que faz sentido pensar que se entrar menos energia do que aquela que sai, se perde peso.

Mas a nossa constituição corporal, que é em parte determinada pela (epi)genética, influencia o modo como utilizamos energia, como a gastamos e até como a obtemos.

Por exemplo, a gordura que possuímos não serve apenas de armazém de energia, de protecção térmica ou para nos deixar insatisfeitos com a imagem reflectida no espelho.

O tecido adiposo é metabolicamente activo e responsável, entre outras coisas, por segregar a hormona da saciedade – a leptina -, que diz ao hipotálamo: “olha, os stocks de gordura estão OK, podes mandar fechar a boca!” 🙂

Assim, quanto mais gordura, mais produção de leptina e consequentemente maior saciedade.

Faz sentido, certo?

Como dizem os ingleses…“not so fast!”.

Quando há muita leptina em circulação, em virtude de uma elevada percentagem de massa gorda, o hipotálamo simplesmente deixa de responder a esta hormona; torna-se resistente e não sinaliza que devemos parar de comer.

Tendo isto em consideração não será agora tão estranho perceber por que razão a pessoa da mesa ao lado, visivelmente acima do peso, “não consegue fechar a boca, pá!”.

A juntar à “pura bioquímica”, temos hoje uma disponibilidade de alimento nunca antes vista, asssim como uma panóplia de “alimentos” hiperpalatáveis, ricos em energia e muito pouco saciantes.

Como por o sistema a funcionar novamente a nosso favor?

Uma das estratégias possíveis é aplicar uma dieta low carb, à base de alimentos nutricionalmente densos.

A dieta low carb actuará de forma sinérgica pois ao consumir-se alimentos com menor carga glicémica, haverá menos estimulação da insulina, logo menos acumulação de gordura. Havendo menos gordura e menos produção de leptina, a comunicação com o hipotálamo será restabelecida.
Por outro lado, sendo uma dieta mais saciante, poderá haver menos necessidade de recorrer a snacks, sobretudo os que estão mais “à mão de desembalar” e que normalmente são de pior qualidade.

Faz sentido, certo?

Mas como vimos no início, também faz sentido cortar calorias, ou seja, fazer restrição calórica.

Pois faz! Só que na restrição calórica lutamos contra a nossa programação evolutiva que, em período de escassez de alimento, sinaliza a redução do metabolismo basal numa tentativa de preservar os stocks de energia. Ou seja, em restrição calórica tendemos a gastar menos energia, o que normalmente acaba por se traduzir numa perda de peso menor do que o esperado.

Apesar de ser uma estratégia aparentemente pouco eficaz e muito sofrida, ainda há quem prefira contar calorias, invocando que ao fazê-lo se sente mais no controlo da energia que entra.

Somos todos diferentes e, portanto, há que reconhecer que nem todos queiram seguir o caminho que achamos mais correcto.

É quase humanamente impossível não partilhar algo que sabemos ter potencial para melhorar a vida de alguém. O entusiasmo por vezes é tanto que é difícil ficar calado, mesmo quando não nos pedem opinião 😀

Mas cada vez mais reconheço que o importante é garantir que os que nos rodeiam tenham a informação necessária para realizar escolhas informadas.

Ansiar espalhar a “boa nova” é natural e altruísta.
Mas facilitar o acesso a informação, fazer as perguntas certas e ter a capacidade de ouvir verdadeiramente, é sem dúvida a melhor forma de ajudar alguém no caminho que escolheu para si 🙂

2 thoughts on ““Não consegue fechar a boca, pá!”

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