Entrevista à Nutricionista Fernanda Martins

Cruzei-me com a Fernanda num grupo de Facebook (Crescer Vegetariano) no dia em que apresentei o meu projecto.

Como conto com a colaboração de dois dos seus membos, fiz um post a apresentar o Simplify Eat e foi a Fernanda que, com muita sensibilidade, me alertou para uma questão que me escapou, tal era o entusiasmo 😀

Percebi que tinha infringido as regras do grupo, pois este projecto não é vegetariano (assim como também não é paleo, ou keto, ou outro rótulo qualquer).

O que proponho é uma alimentação minimamente processada, baseada em produtos de época, na minimização de desperdícios, no respeito pelo ambiente e pelas opções e individualidade de cada um.

Retirei o post e agradeci-lhe o “toque” por mensagem privada. Conversámos um pouco. Contei-lhe da minha paixão por nutrição e ela partilhou comigo que tinha voltado a estudar para se licenciar em Ciências da Nutrição!

“Nunca é tarde” 🙂

Fiquei curiosa, quis saber mais sobre esta mudança e sobre esta pessoa tão inspiradora! Vamos a isso?

Olá Fernanda, grata pela oportunidade. És a minha primeira entrevistada 🙂 A tua vida deu uma volta de 180 graus. Porque decidiste largar o teu emprego na administração pública e estudar Nutrição? Porquê o interesse?

Já estudo nutrição há vários anos, nomeadamente fiz várias formações sobre alimentação vegetariana, mas como não me sentia confortável com a alimentação que fazia decidi tirar o curso de Macrobiótica (3 anos letivos) e o Curso anual de Culinária macrobiótica. Apesar da filosofia macrobiótica me dizer muito, existiam vários alimentos que eu não podia ingerir como as leguminosas e o seitan. Durante esses 4 anos pratiquei a alimentação macro, mas depois voltei aos poucos para a vegetariana, que é a que me faz mais sentido.

Sempre gostei de partilhar conhecimentos, desde a escola primária (nessa época já dava “explicações” a algumas colegas), e foi isso que me levou novamente para universidade para fazer o curso de Ciências da Nutrição, ou seja, através das consultas partilhar a minha aprendizagem com os pacientes e fazer com que a vida deles mude, se transforme de forma permanente. O objetivo final é prevenir patologias e com isso proporcionar uma vida mais saudável e também sustentável.

Respondendo diretamente à pergunta, nos últimos anos que trabalhei na Administração Pública praticamente só lidava com papéis e sentia, que apesar do meu esforço, não estava a ajudar ninguém, sentia a falta de proximidade com as pessoas…daí o investimento na Mudança!

Como é que a tua família e círculo íntimo reagiu a esta decisão? Tentaram demover-te?

Esta foi a parte mais fácil, senti um apoio a 100%. Foi mesmo excelente! Mesmo no trabalho, pois era funcionária pública e tinha um horário para cumprir, facilitaram-me a ida para a Fernando Pessoa no Porto, onde terminei o curso, que tinha começado no Piaget, em Almada.

E que tal voltar à faculdade depois de tantos anos? Que diferenças notaste entre a jovem Fernanda estudante de Economia e a jovem Fernanda estudante de Nutrição?

O impacto foi giro, não tanto nos dois primeiros anos onde estava com pessoas muito mais novas do que eu (acabadas de sair do secundário)…Contudo, no Porto adorei a minha turma de 38 colegas, quase todos com a idade da minha filha. Lá fiz grandes amigos com os quais ainda mantenho contacto regular.

Alguma vez pensaste em desistir ou te arrependeste da decisão?

Sendo eu da área da Economia, no 1º ano o impacto com algumas disciplinas como a Química e a Biologia foi muito duro. Tive inclusive de pedir livros do 8º e 9º anos e tive a ajuda da minha filha e de outra amiga nossa. Acho que cheguei a chorar numa aula de química e deixá-la a meio e ir para casa…mas, não desisto facilmente! 🙂

Já tive ocasião de partilhar com algumas pessoas que sentia um certo “desgosto” por não ter seguido Nutrição. No entanto, apesar de achar que seria a minha verdadeira vocação, sinto-me grata pelo meu percurso académico (biologia) e profissional (ambiente), pelas ferramentas que me deram. E tu? Sentes que se pudesses voltar atrás, ter-te-ias inscrito em nutrição?

O ensino superior é um assunto complicado de falar. Quando estamos a estudar, em especial nos dois primeiros anos, é tudo tão teórico, que dá vontade de desistir…O que me levou a fazer o curso foi sentir-me com uma maior bagagem, apoio científico, apesar de depois de acabar o curso, começar verdadeiramente o nosso percurso. No meu caso, sendo vegetariana, pouco se falou sobre esse assunto nas disciplinas de Nutrição, portanto é um desafio diário.

Sem dúvida, se voltasse atrás ter-me-ia inscrito, de certeza, num curso de Ciências da Nutrição.

Da tua “mala de ferramentas” académica e profissional, quais são as ferramentas que aplicas na tua nova profissão e como elas te permitem exercê-la ainda melhor?

No curso de Economia aprendi mais o método científico, a organização e o planeamento. Na minha vida profissional o que mais me marcou foi, sem dúvida, o relacionamento interpessoal.

És vegetariana. Desde quando?

Não consigo precisar a data, mas antes de começar o curso de Macro em 2006 já era vegetariana. Não quero com isto afirmar que, entretanto, não tenha voltado a comer peixe, num curto período, mas isso aconteceu há já bastantes anos. É o que me recordo.

No teu consultório apenas atendes vegetarianos?

Obviamente que cada um de nós é um Ser diferente, cada um tem o seu percurso, portanto eu respeito as opções de todos os que me procuram.  Além do mais como profissional de saúde tenho o dever de respeitar o “código de ética e deontologia profissional”.

Como defines “alimentação saudável”?

Alimentação saudável e sustentável, sim, porque no momento que vivemos estão a ser postas em causa muitas questões, entre elas, a sobrevivência do Planeta. Falando apenas sobre alimentação direi que alimentação saudável é comer de uma forma simples, equilibrada, com alimentos sempre que possível locais, da estação e orgânicos. Fundamental, na minha opinião, é dar preferência sempre a frutas e vegetais, complementados com frutos secos e sementes.

Há tempos fiz esta pergunta à comunidade Simplify Eat e no facebook: quais são os principais obstáculos para a adopção de uma alimentação saudável como estilo de vida, isto é, a longo prazo. Queres dar uma achega?

Acho que a simplicidade é a chave para adotar um estilo de vida saudável, tanto a nível da alimentação, como da atividade física como dos pensamentos. Se queremos mesmo alguma coisa, temos de ter FOCO e tudo irá acontecer, basta acreditar e trabalhar para conseguir esse objetivo. Não concordo com os obstáculos do dinheiro, ou seja, que os alimentos saudáveis são mais caros. Não, podemos comer simples, pratos coloridos, com uma base sempre vegetal, sem alimentos processados, em suma, sem plásticos, sempre que possível. Assim, tudo fica mais fácil e mais barato, contribuindo cada um de nós para uma vida mais sustentável.

Tens alguma dica que queiras deixar a quem está agora a enveredar por uma alimentação mais saudável?

Cada pessoa tem o seu ritmo, tenho conhecido pessoas que preferem um passo de cada vez, ou seja, deixam a carne, depois o peixe e os derivados. Existem os que decidem mudar de repente. Eu aí não opino, estarei sempre disponível para acompanhar o processo de Mudança/Transformação, seja ele mais lento ou mais rápido. O importante é decidir Mudar!

Onde te podemos encontrar?

Podem-me encontrar no Facebook, na minha página pessoal e profissional, no Instagram e no meu site.

Para consultas em Lisboa, na Avenida Fontes Pereira de Melo, 29 – 3º andar, todas as sextas-feiras, entre as 8h – 23h, marcações através do 96 474 69 43.

Em Carnaxide na loja Greenfield, às quartas-feiras, marcações através de 21 416 0582.

E Online para todo o Mundo! 🙂

Obrigada Fernanda!

Eu é que estou grata pela oportunidade que me deste.

Fim 🙂

 

Espero que tenham gostado desta entrevista tanto quanto eu!

Cheguei a emocionar-me com as palavras da Fernanda, nomeadamente a sua visão holística, integrada, de que comer saudável não tem “apenas” a ver com os alimentos.

O ambiente importa, a individualidade importa e a velocidade a que queremos percorrer o nosso caminho, deve ser respeitada.

É tão isto que também defendo, que seria impossível não me emocionar 🙂

Até à próxima entrevista!

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