Como curei a “enxaqueca de supermercado”

a economia comportamental assenta na premissa de que somos irracionais nas nossas decisões económicas, e considera que existem outros factores, além da lógica, que pesam na nossas escolhas.

desejos, hábitos, normas sociais e até o ambiente físico que nos rodeia, afectam-nos mais do que pensaríamos (ou gostaríamos). e o mais engraçado é que muitas vezes, nem nos damos conta do seu papel nas nossas tomadas de decisão.

a questão do ambiente físico é muito interessante, pois pode influenciar positiva ou negativamente o nosso comportamento enquanto consumidores.

hoje fala-se muito em nudge, uma técnica usada para modelar o nosso comportamento sem que nos apercebamos.

existem vários exemplos de nudge aplicados à alimentação saudável. por exemplo, acrescentar adjectivos como “tenro”, “suculento”, “crocante” às opções mais saudáveis de um menu, aumenta a probabilidade destas opções serem selecionadas. impacto positivo, portanto.

e por falar em menus, um estudo da universidade de cornell verificou que tomamos cerca de 226 decisões por dia…relacionadas com comida, apenas! questões como quando/o quê/quanto/quando/quem, povoam a nossa mente quando pensamos em paparoca.

o curioso é que os participantes do referido estudo, subestimaram em larga medida o número de decisões, reportando em média…15 decisões! “só” 200 a menos 🙂

isto reforça claramente que não nos apercebemos da enorme quantidade de informação que processamos quando temos de escolher o que comer ou o que comprar para comer.

ainda bem. seria extenuante!

mas como usamos a informação e tomamos decisões sem estar conscientes?!

em situações desse tipo usamos uma componente da memória de curto prazo: a memória de trabalho. esta possui uma capacidade de armazenamento limitada, permitindo o processamento de informação útil para o desempenho de uma tarefa. utilizamo-la, por exemplo, para memorizar o preço de determinado item, ou a quantidade de açúcar indicada na sua composição, ou os passos de uma receita.

o esforço cognitivo que dispendemos nas decisões que correm na memória de trabalho, depende de vários factores (fadiga, tempo de resolução, ansiedade, …) e é tanto maior, quanto menor for a exposição prévia a problemas semelhantes. isto é, conhecimento novo exige de nós maior esforço, o que é lógico.

eu sofria de “enxaqueca de supermercado”…um mal-estar, uma sensação de mente enevoada que sempre atribuí às luzes, ao som, ao ambiente fechado de uma grande superfície.

o que é certo é que hoje em dia [reparei nisto há pouco tempo] já não sofro desse mal.

o que terá acontecido? habituei-me? tornei-me insensível aos estímulos que anteriormente me causavam desconforto? é possível. mas tenho uma teoria alternativa 🙂

a minha teoria, é que actualmente passo muuuito menos tempo a deambular pelos corredores de comida e, por isso, sofro menos a influência negativa desse ambiente “hostil”.

e porque razão deambulo menos? por vários motivos:
i) normalmente vou aos mesmos locais e portanto já conheço mais ou menos os “cantos à casa”
ii) levo uma lista de compras organizada por categoria, que funciona como um mapa mesmo que não conheça o local
iii) minimizo a compra de produtos processados, logo tenho menos necessidade de verificar rótulos e listas de ingredientes
iv) tendo “perdido” bastante tempo, nos últimos anos, a estudar rótulos e listas de ingredientes, opto pelas marcas que me garantem as composições mais adequadas e, caso examine uma marca nova, mais facilmente me saltam à vista os ingredientes a evitar
v) planeio as refeições e, a partir daí, construo a lista de compras. assim evito ter de pensar nas infinitas possibilidades e combinações dos itens que coloco no meu carrinho de compras

na verdade o que aconteceu, é que através do planeamento, reduzi substancialmente o esforço cognitivo associado à tarefa “comprar comida”.

e apesar de pensar menos soar irracional, acaba por fazer de mim uma consumidora mais racional.

o que, decerto, não agrada à indústria…temos pena 🙂

e por aí? já alguém sentiu a “enxaqueca de supermercado” ou algo parecido? que estratégias usam para ser racionais na hora de comprar? também planeiam as refeições? contem-me tudo! 🙂

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