Carta aos colegas pais

 

estimados colegas,

decidi partilhar convosco algo que me incomoda imenso nas festas na escola: os saquinhos de doces.

e se me “incomoda imenso” porque me atrevo a chatear-vos com algo que é meramente pessoal? porque acredito que é tudo menos pessoal. é uma questão social, que diz respeito a todos: a saúde dos futuros cidadãos.

não pretendo fazer uma abordagem científica, pois já todos conhecem os malefícios e o potencial de adição do açúcar.

evoluímos de forma a procurar, reconhecer, desejar esta fonte rápida de energia quando mais precisávamos dela: há milhões de anos atrás.

foi uma característica tão importante para a nossa sobrevivência, que vingaram aqueles que tinham maior apetência para a dádiva da natureza, que são os açúcares.

nós somos os descendentes desses autênticos perdigueiros de calorias rápidas, facilmente convertíveis em gordura, que foi essencial nos períodos de escassez.

mas vivemos noutra era: a da abundância e acessibilidade.

moldámos a natureza a nosso favor e muitas das nossas invenções atalham anos, séculos, milénios de uma evolução que é lenta e gradual.

a alimentação não é excepção.

hoje temos à nossa disposição alimentos doces em abundância, cujos preços são inversamente proporcionais à sua qualidade nutricional e conveniência.

e esses “alimentos” com açúcar, combinam o pior de dois mundos: reduzido custo e elevada adição.

creio ser nossa responsabilidade, enquanto pais, proteger os nossos filhos, evitando ao máximo a sua exposição a substâncias com estas características.

eu vejo-o como uma vacina, não de doenças agudas, contagiosas e rapidamente mortais; mas como uma protecção de longo prazo, para doenças crónicas que nos afectam (e afectarão) a todos enquanto sociedade.

mas o ser humano, animal “superior” dotado de pensamento lógico, é menos racional quando se trata de satisfazer os seus desejos mais primários. comer algo doce desencadeia reacções fisiológicas que vão desde a estimulação de hormonas à libertação de neurotransmissores associados ao prazer e bem-estar.

além do prazer, as crianças têm a (des)vantagem de a experiência ser livre de culpa, logo sem qualquer necessidade ou tentativa de autocontrolo.

e é tão difícil explicar a uma criança pequena porque não queremos que coma algo que lhe dá prazer. assim como é difícil encontrar uma resposta adequada quando uma criança de 4 anos nos pergunta “mas se faz mal porque dão aos meninos?”. “porque se calhar não sabem que faz mal…?”

mas tudo bem, vamos contornando as situações que vão surgindo aqui e ali, tentando equilibrar dias mais permissivos com dias menos permissivos, pois ninguém é capaz de viver numa bolha impermeável ao mundo exterior. eu pelo menos não sou, nem quereria.

e fazemos isto, pelo menos nos primeiros anos de vida, fase importantíssima para a sua protecção futura, já que o ambiente em que vivem (e a dieta!) influencia a expressão dos seus genes.

o que rebate o típico argumento “não os vais poder controlar sempre”. pois não. a ideia é minimizar o consumo de acúcar, numa fase crucial do seu desenvolvimento.

mas a “contornar” apenas, que contributo estaria eu a dar? não estaria a subestimar os meus pares: pessoas inteligentes, que ao serem confrontadas com argumentos válidos, podem decidir (ou não) rever a sua posição? e que modelo de sociedade estarei eu a passar aos meus filhos quando prefiro enterrar a cabeça na areia e não “levantar ondas” com receio de ser mal interpretada, rotulada de qualquer coisa acabada em “ista”?

não é confortável remar contra a maré, mas por diversas ocasiões assumi “ao vivo” o desconforto do revirar de olhos, dos olhares cúmplices, do burburinho que se gera quando se levanta a questão dos doces.

mas a minha visão da questão é simples e legítima: se fora do contexto escolar existem já imensas oportunidades para satisfazer os nossos desejos doces, para quê contribuir para a pilha de açúcar?

para quê sacos com açúcares, corantes, aromas artificiais e outros aditivos? porque razão não cortamos com uma moda que só traz desvantagens?

um bolo não é suficiente para alegrar a criançada?

porque não criar novas modas que acrescentem valor, sem doces e sem saquinhos de plástico, esse enorme problema ambiental com que os nossos filhos vão ter de lidar durante as suas vidas?

é extremismo? fundamentalismo? é brigada anti-açúcar em acção?

ou apenas um sincero apelo ao bom senso?

cumprimentos,

andrea

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