A falácia dos “produtos especialmente concebidos para crianças”

Não é propriamente novidade o grande investimento da indústria alimentar no marketing dos seus produtos.

Basta entrar num corredor de cereais ou bolachas, que vemos pacotes com bonecos que apelam ao consumo pelos mais novos, ou com alegações várias que levam os pais acreditar que determinado produto é uma boa opção.

Este foi o mote para um estudo da Universidade de Glasgow, no qual foram analisados 332 produtos dirigidos a crianças (cereais, snacks de fruta, sumos de fruta, lacticínios e refeições prontas a consumir).

As técnicas de marketing mais utilizadas nestes produtos foram: “bonecada” (91.6%), alegações nutricionais (41.6%) e alegações de saúde (19.6%).

De seguida, os investigadores avaliaram o perfil nutricional das amostras (segundo o Nutrient Profiling Model da entidade reguladora inglesa Ofcom) para atestar a sua qualidade e comprovar a veracidade das alegações. Sem surpresas, verificaram que uma decepcionante percentagem de produtos
supostamente saudáveis, dirigidos a crianças, obtiveram uma classificação “pouco saudável” (41%).

São números que dão que pensar, pois mostram a irresponsabilidade de muitas marcas (mais uma vez, sem surpresas) e porque afectam negativamente as escolhas dos pais.

Sei que muitos defendem que estes devem estar devidamente informados e que hoje em dia, com tanta informação disponível, não há desculpas.

Tanto concordo, que parte do trabalho que faço é facilitar essa informação e dotar os pais (e educadores) de ferramentas práticas que lhes permitam escolhas mais acertadas.

Mas criticar somente os pais, parece-me injusto e limitado, quando por vezes, produtos “pouco saudáveis” chegam a ser recomendados por alguns pediatras e outros profissionais de saúde.

Penso que antes de criticar os que pensam estar a fazer o melhor para os seus, devemos identificar vários elefantes na sala: a falácia da autoridade (profissionais de saúde e outros fazedores de opinião), a indústria alimentar, que vende a qualquer “preço”, e as leis e mecanismos reguladores, que permitem a venda e publicidade de produtos de baixa qualidade “especialmente concebidos para crianças”.

Foi com agrado que, precisamente enquanto escrevia este artigo, recebemos a notícia da publicação em DR da lei que “aprova restrições à publicidade a alimentos nocivos para a saúde dirigida a este público” [< 16 anos].

São boas notícias 🙂 Por isso termino com um grande sorriso e esperança renovada.

Acredito que a mudança é possível e que o caminho é composto por vários passos na direcção certa. Este será um deles!


Fonte: “Confused health and nutrition claims in food marketing to children could adversely affect food choice and increase risk of obesity” (resumo).

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